O que aprendi quando fiquei cara-a-cara com a morte

Nós, sobrevivencialistas, nos preparamos para sobreviver a porra toda. Armazenamos arroz, estocamos prata, treinamos com facas e planejamos cada rota de fuga para quando o mundo decidir acabar. Mas aqui está a verdade que vai pesar no seu coraçãozinho: a única certeza absoluta que temos é que todos nós vamos morrer. E, provavelmente, antes do que gostaríamos.

O sobrevivencialismo real não é apenas sobre evitar o fim; é sobre o que você faz quando recebe um diagnóstico que te dá 95% de chance de bater as botas e só 5% de sair vivo de uma mesa de cirurgia. Eu aprendi que o maior paradoxo de quem se prepara é cuidar de tudo no mundo externo enquanto o próprio corpo está apodrecendo por dentro. Quando a morte bateu à minha porta, percebi que a sobrevivência vai muito além da carcaça; ela exige a mesma frieza técnica que usamos para purificar água, mas aplicada ao nosso próprio fim.

Muitos se desesperam, gritam ou entram em negação. O sobrevivencialista faz o oposto: ele liga o “modo psicopata”. É um pragmatismo absoluto, desprovido de sentimentalismo barato, porque morrer dá um trabalho do cacete. Se você não se planeja, você pune quem você ama.

“Quando você morre você ferra alguém. Alguém que pelo menos vai ter que lidar com aquela sua carcaça.”

Assim que o cenário de “xeque-mate” se apresentou, meus primeiros movimentos não foram emocionais, foram técnicos. Chamei um advogado e um contador. Esses dois são seus primeiros escudos contra os abutres. Você precisa tratar de sucessão, herança e orientar a sua “não vida” enquanto ainda tem fôlego. O seguro de vida aqui entra como uma ferramenta de sobrevivência familiar: ele garante que o Estado e a burocracia não devorem o que você lutou para acumular, deixando um mínimo de oxigênio financeiro para quem fica.

Existe uma indústria desenhada para te assaltar no momento da sua maior dor. Meu professor na área de eventos sempre dizia que os dois melhores momentos para ganhar dinheiro são casamentos e funerais. Por quê? Porque as pessoas acham que não têm opção. É a “última homenagem”, então pagam R$ 2.000 em uma coroa de flores que vale dez vezes menos.

No funeral, a família é cercada por abutres — desde o cara do caixão até a mocinha da floricultura. O sobrevencialismo aplicado à morte exige que você preveja esse custo para que sua família não seja vítima de extorsão emocional. Eu não quero flores; flores são um roubo. Eu prefiro cinzas e pólvora. Planejar a própria saída é uma manobra defensiva final.

A ironia é uma desgraça. Passei a vida preocupado com conservantes na comida, mas descobri que meu próprio corpo estava me “preservando” de forma letal. Na sobrevivência, usamos sal e açúcar para conservar carne de porco e frutas. A diabetes fez exatamente isso comigo: ela me transformou em uma conserva humana.

O diagnóstico médico foi visceral: meu coração tinha virado um “creme açucarado”. Estava totalmente “glaceado”, como uma fruta cristalizada. Enquanto eu me preocupava com o estoque na prateleira, o açúcar estava cristalizando meu motor interno, retirando a água dos tecidos e me deixando sem coração, literalmente. Encarar um médico dizendo que você não deveria estar vivo e que suas chances na cirurgia são quase nulas é o teste definitivo de sanidade para qualquer preparador.

A preparação real envolve sobreviver ao “cancelamento institucional” enquanto você ainda respira. Existe um limbo jurídico onde o sistema te desliga antes de você morrer. Por causa da minha lesão cardíaca, fui proibido de trabalhar; mas, por conta das mudanças nas regras da previdência, o governo também não me aposenta.

Eu me tornei um “desligado do sistema”. Meu CPF não “bate” mais em lugar nenhum. Sou um invisível para o Estado, sem benefícios, sem conta formal, vivendo como um “camelô” ou o que eu chamo de “homem troféu” — sobrevivendo graças ao suporte da minha esposa porque o sistema me deletou.

“Me preparar para morrer corresponde em igual intensidade a me preparar para ser cancelado pelo governo.”

A verdadeira liberdade é conseguir manter a paz, a água e a comida mesmo quando você se torna um clandestino na sua própria terra.

O meu desejo pós-morte não envolve choro, envolve utilidade. Na ocasião, expliquei ao meu filho então com 10 anos que, se eu partisse, voltaria como um “slime” (um personagem de anime), mas o plano real é mais pesado: quero ser cremado, minhas cinzas devem ser moídas e colocadas dentro de munições de ponta oca.

Imagine o cenário: minha esposa vendendo as “Batata-bullets” por R$ 10 cada para pagar as custas do funeral. É o ápice do pragmatismo sobrevivencialista. O objetivo é que o último ato físico da minha existência seja levar justiça para um bandido. Ser disparado contra um pilantra é o único legado que faz sentido para mim. É transformar o que restou da “carcaça” em um instrumento de defesa da ordem.

Espiritualidade para o sobrevivencialista não é dogma, é logística de paz. Eu não sou um perito em teologia, mas eu e o “Chefe” (Deus) nos entendemos bem. A Bíblia, para mim, é o manual de sobrevivência definitivo. Ela aborda tudo: da conduta prática em tempos de crise ao conforto necessário para deitar em uma maca de hospital e não saber se vai acordar.

Ter essa conexão traz a “paz” necessária para não fazer merda quando o botão do “foda-se” está ligado no máximo. Antes de entrar na cirurgia, fumei meus últimos cigarros, tomei meus cafés pretos e me entreguei ao que o Chefe decidisse. A fé não substitui a faca no cinto, mas garante que sua mão não trema quando o xeque-mate se aproxima.

Sobrevivência real é sobre ter paz, água, comida e a consciência limpa. Quando você acorda de uma cirurgia onde não deveria ter sobrevivido, percebe que as pequenas coisas — peitos, facas, um pedaço de pizza de calabresa e a segurança da sua família — são o que realmente importa.

Agora te pergunto: você está preparando um futuro confortável para quem ama ou está deixando uma guerra para seus filhos herdarem? O verdadeiro sobrevivencialista planeja até o último movimento, garantindo que sua partida não seja um desastre para os que ficam, mas uma transição organizada em direção à paz.

Fique seguro!
Batata